#07 (1)

Chegou com pressa em casa. Acendeu a luz da cozinha e um desânimo enorme tomou conta da cabeça dele. Até então estava certo de que sairia essa noite e faria a festa da maneira que todos fazem, porém o ar abafado e o cheiro peculiar da sua cozinha o fizeram pensar melhor. Já eram 22:20. Foi para o chuveiro e deixou a água cair fria. Uma sensação de desespero e agonia entrou no lugar do desânimo inicial. Ele estava preso a um mundo injusto. Precisava de dinheiro para viver, porém não tinha muito. Para conseguir o dinheiro ele tinha que trabalhar, porém já não tinha mais um trabalho. Sua vida profissional era simplesmente ridícula, a social praticamente não existia.

Sentou-se no chão do banheiro, ainda com a água fria caindo em sua cabeça. O cabelo cobriu os olhos e sua mente se abriu. Ele A vida acontece apenas uma vez, e até agora não tinha exatamente feito nada. Mas essa era a sua única chance. A única de saborear as mais variadas gastronomias, as mais diversas mulheres, os melhores livros, conhecer as melhores pessoas. Ele não iria mais gastar a sua vida com o dinheiro, com o trabalho escravo que são as 8 horas diárias.

Levantou-se, lavou-se e enxugou-se. Procurou o único perfume que já tivera na vida. Nunca o tinha usado. Passou, arrumou-se e pegou a carteira. “Vou sair” e saiu. O primeiro lugar que parou foi num bar próximo da sua casa.

O bar estava bastante cheio. Em uma rápida olhada notou que sua percepção do que os outros consideravam diversão estava certa. A grande maioria estava sentado em mesas pequenas, lotadas de garrafas de cerveja e com o cinzeiro cheio de cinzas, claro. O ar era carregado da fumaça dos cigarros e de risadas falsas. Não voltaria atrás. Pegou uma cadeira e uma mesa vazia e sentou-se. Logo chegou o garçom.

- Quero uma cerveja, por favor.

- Temos várias marcas, qual o senhor deseja?

- Qualquer uma. Me traga duas.

O garçom serviu o primeiro copo que foi bebido em segundos. Logo o segundo copo já tinha sido tomado e em poucos minutos a garrafa. Levantou-se, pagou a conta e levou a outra garrafa no colo. Aquela gente era ridícula demais para que ele ficasse agüentando. Já tinha ouvido falar de uma boate que ficava por perto. Para lá ele foi.

Como não era seu costume encher a cara, a primeira garrafa tinha feito um bom estrago na sua coordenação motora. A calçada, apesar de bem nivelada, era como um enorme obstáculo para seus pés. Tropeçou duas vezes. Na primeira caiu e rasgou parte da calça jeans no joelho. Na segunda vez se segurou num cara que passava por perto. Ele e todos os que andavam juntos riram do pobre jovem nerd bêbado e perdido.

Sentou-se na calçado e terminou a segunda garrafa. Precisava conseguir mais. O objetivo era apagar por completo, deixar tudo para trás, perder-se no ar ou, como dizem as pessoas normais, se divertir.

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