#06 (2)

No ônibus as coisas podiam ter dado errado, mas continuaria sua jornada. Não era apenas uma experiência ou uma aventura que, por motivos desconhecidos, tinha colocado na cabeça que faria. Claro que não, o que estava em jogo era um sentido para sua vida. E isso era sério. Desistir significaria a derrota completa, ou seja, que sua vida, matematicamente falando, seria igual a zero.

Chegou ao trabalho um pouco mais suado que o habitual: teve de passar por uma enorme vergonha, ser xingado e caminhado rapidamente para o local de trabalho.

Seu patrão, ao chegar, pediu para falar com ele em sua sala mais tarde, no final do expediente. Ótimo, talvez fosse a sonhada reviravolta de sua vida! Um salário melhor, uma promoção poderia estar por vir. Era, talvez, a grande chance de começar tudo de novo e com o pé direito.

Trabalhou como nunca. Foi simpático com os clientes durante todo o dia, conversou e contou piadas – mesmo conhecendo poucas, conseguiu tirar um ou outro sorriso de algumas pessoas. O dia tinha começado ruim, porém ele, sim ele mesmo, estava conseguindo por conta própria melhorá-lo. E, no final do dia, ainda tinha a chance de ganhar uma promoção, o que, em sua cabeça, era certo que ganharia.

A hora era agora. Seu chefe colocou metade do corpo para fora da porta e disse:

– Então, vamos lá? Podes entrar.

Sua cabeça estava flutuando, parecia dopado. Dopado de felicidade. Era uma sensação incrível, inexplicável. Se pudesse gostaria de se manter assim para o resto da vida. Aliás, agora, finalmente, sentia que sua vida estava valendo a pena, que ele não estava apenas gastando o oxigênio disponível em nossa atmosfera, que todo o gasto de energia que seu corpo tivera até agora finalmente teria um sentido, pois ele tinha um sentido, estava fazendo algo certo. Tudo parecia estar em completa harmonia, o movimento das coisas era muito agradável de se olhar, os sons que saiam da boca do seu chefe pareciam da melhor música do mundo. Tudo parecia perfeito até que seu estado de alegria fora interrompido pelas palavras VOCÊ, ESTÁ e DEMITIDO.

– Como? – perguntou desesperado, – Estou demitido?

– Sim, meu jovem. A empresa está passando por… – isso já bastava. Se levantou e saiu tomando bastante cuidado para que a porta batesse com muita força. As pessoas não prestavam. Seu dia fora arruinado, junto com sua vida, por pessoas ignorantes e gananciosas que não conseguem olhar muito além do seu próprio umbigo.

Sentia-se, novamente, dopado. Dessa vez sentia-se dopado de raiva e tristeza. Achou engraçado e curioso que dois sentimentos opostos – a alegria e a raiva – pudessem produzir o mesmo efeito em seu corpo. A vida era mesmo um grande mistério. Tinha nascido, estudado, iniciado um trabalho para nada. Onde estava o propósito de tudo isso? Talvez ele nem existisse. Ou melhor, ele não existe.

A última etapa da sua “aventura” precisaria dar certo. O que ele faria: sairia para um bar ou boate e tentaria beber até ficar completamente dopado, sim, da mesma forma que ficou dopado de alegria e raiva, queria ficar dopado, alegre e triste com o álcool.

Achou estranho? Pois não é. As pessoas consideradas normais fazem isso. E ele também faria.

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