#06 (1)

Acordou um pouco antes, dessa vez sem a ajuda do despertador ou dos raios do sol na sua cara. Levantou depressa, se espreguiçou e respirou bem fundo: esperava profundamente que essas pequenas atitudes pudessem mudar a sua vida ou pelo menos melhorá-la um pouco. Não é isso que as pessoas dizem? Que as pequenas coisas tornam seus dias melhores. Foi para o banheiro se arrumou e preparou o café. Colocou o pão na forma de misto-quente, mas o gás tinha acabado. Algumas coisas sempre darão errado, por melhor que sejam as suas intenções. Tentou não ficar com raiva, era só comida, apenas o seu café da manhã. Comeu, bebeu e saiu.

Depois de caminhar cerca de 100 metros se deu conta de que teria de ir de ônibus. Suas “manias” tinham de acabar e fugir delas não adiantaria em nada. As pessoas eram ridículas, sim, porém ele mesmo havia proposto que seria uma boa idéia ser normal e, sim, isso queria dizer aturar e até tentar se entreter com a conversa fiada de pessoas num ônibus. Caminhou para o ponto, onde duas pessoas já esperavam pelo coletivo.

– Oi – ele disse. Ninguém respondeu. Num primeiro momento percebeu que ser feliz ou parecer normal nada tinha a ver com ser expansivo e extrovertido. Nesse primeiro momento teve a percepção de que ser extrovertido e expansivo era apenas uma forma equivocada e estúpida de querer aparecer e ser notado. Ele não queria ser assim. E não tentaria ser. Portanto, ficaria na sua, só que mais simpático.

Já dentro do ônibus, colocou a mão no bolso para pegar o dinheiro da passagem, porém, para sua completa surpresa e afirmação da sua completa estupidez, estava vazio. Claro, sua idéia original era ir caminhando e para isso o dinheiro era desnecessário. Uma enorme sensação de vergonha misturada com desprezo a si mesmo tomaram conta do seu corpo. Como diabos poderia ter esquecido do dinheiro da passagem?

O que fazer? Não tinha a menor idéia. Nunca havia passado por isso. Não tinha como sair dessa situação sem ser percebido e sem parecer um completo panaca. Tentaria ser simpático, era essa a ideia.

– Moço – falou para o cobrador –, eu esqueci o dinheiro. – Vergonha, vergonha e mais vergonha. Sentia-se pequeno e muito burro. Talvez essa idéia de ser normal fosse mesmo ridícula, que ele não fora “parido” com esse objetivo, que não tinha tal capacidade. O cobrador, com aquele bigode tosco que mostrava o quão retardado e alienado era, fez uma cara de “você não vai me enganar, moço” e soltou:

– Alfredo! Para o ônibus.

Num solavanco o coletivo parou. O motorista e o cobrador pediram com o mínimo de educação possível para que “esse moleque safado e enganador saísse do ônibus”. Ele saiu, é claro. Como podia? Nunca o trataram assim. Ninguém realmente o conhecia a ponto de dizer com certeza que ela era um caloteiro, um “safado e enganador”, nas palavras do cobrador e do motorista. Ninguém. E agora, enquanto tentava ser legal para se sentir legal, as pessoas continuavam sendo os cuzões de sempre. Então pra que mudar se o mundo não está nem aí para mudanças e para os outros? Justamente naquele dia que ele tentaria ser um cara bacana, todos estavam contra ele.

Em algum momento isso daria certo? Ele já estava ficando chateado, mas ainda tinha vontade de sobra para continuar tentado. Pelo menos até o final do dia.

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