#03

Na volta para casa sua mente pulsava com rapidez e força. O sono no gramado tinha feito bem para o corpo, mas não para suas ideias.

Que tipo de pessoa vive toda sua vida sem nunca experimentar boas doses de motivação e ambição? Era o tema de seus pensamentos. Finalmente chegou em casa. Preparou uma xícara de chá e sentou na varanda para observar a chuva que tinha começado poucos minutos atrás. Gotas finas e numerosas encharcavam a grama mal cuidada da casa onde morava. Gostaria de ter viver em um lugar onde pudesse passar seus dias sem se envergonhar da inércia que tudo tinha sido até aquele momento.

O chá estava ótimo. Doce na medida e não muito quente. Ainda com metade da xícara cheia (e não vazia) deitou novamente, mas dessa vez no piso de madeira da entrada. Olhando os pingos de chuva vindo do céu desejou com muita força que algum tipo de tempestade ocorresse em sua existência. Não importa o quão forte fossem os raios, mudanças seriam bem vindas não importa quais fossem. Seus olhos se encheram de lágrimas. Nada mudaria. Os ventos que sopravam sobre ele mal bagunçavam seu cabelo. O despertador tocou, era hora de ir trabalhar.

Sem almoçar, colocou o uniforme e foi para o trabalho. Mais tarde, já passado muitas horas desde que o dia tinha escurecido ele chegou em casa. Tomou outro chá. Nada havia acontecido naquele dia e bem provavelmente nada aconteceria nos próximos. Porém, como diz aquela música, apesar do sol ainda ser o mesmo, você está cada dia mais perto da sua morte. Mas, nessa questão específica, muitos poderiam discordar e argumentar que para ele a vida já tinha terminado há bastante tempo.

#02

O dia estava nublado. Quente. Antes de sair o termômetro marcava 32ºC dentro de casa. Céus, como estava quente. Não tinha vento nas ruas, mesmo andando com a bicicleta. Parecia que nada estava se mexendo, que a Terra tinha esquecido de pegar o impulso, que seria para sempre 10h. da manhã Sentiu uma tontura e parou no parque. Suava como nunca. Largou a bicicleta e deitou na grama.

Muita gente vive praticamente todos os dias de suas miseráveis vidas sonhando com o momento, com o dia em que será o marco para definir o significado da sua existência. Aquele dia que irá ser o divisor de águas entre a parte miserável e parte grandiosa, o magnífico dia onde tudo se encaixará, aquela parte da história onde todos vivem o resto de suas vidas felizes. Para uns esse dia é o dia em que receberão uma promoção, para outros o dia em que irão encontrar a pessoa perfeita. Praticamente todas sonham com isso, algumas, inclusive, esquecem da vida e seguem o sonho. Babacas.

Se em sonhos você pode qualquer coisa, vamos lá, o que você quer? Vencer na loteria mais de uma vez, viajar o mundo inteiro é o que posso quase ouvir muitos responderem. Ele gostaria apenas de encontrar uma lâmpada mágica, com um gênio azul e brincalhão lá dentro. Três desejos meu amo. Vou querer apenas um, pode ser? Se esse é o seu desejo, claro, meu amo. Gênio, me dê apenas um cubículo fresco, arejado, quero poder controlar a iluminação, precisa ser aconchegante e um lugar onde ninguém me alcançe, me enxergue, tranque a porta e me deixe lá.

Ouviu ruídos. Acordou muito suado, a chuva não demoraria muito tempo. Só queria estar seguro e salvo.

#01

Acordou do sonho. Estava suado, a cabeça doendo forte. No sonho estava no meio da multidão não sabia o que acontecia ali apenas tinha muita gente. Um mundo inteiro em um salão. Todos conversavam, trocavam olhares e aparentavam felicidade. Menos ele. Olhava para seus pés e desviava os olhares que por vezes acertavam sua face. Além de estar no meio de uma enorme confusão onde apenas ele não fazia parte de tudo, no sonho, bolhas estavam nascendo em seus braços e mãos. Bolhas amareladas. Uma infecção? Talvez. Quem sabe? A causa: sua vida. Sua vida que lhe causava tremores, febre, dores e tudo o mais estava ali se manifestando. A vida era sua doença. Era a vida que o fazia infeliz.

Finalmente retirou o suor da testa. Deus, como estava suado. E cansado, aquela tinha sido uma péssima noite. Sentou-se na cama e na mesa ao lado ainda estavam os rascunhos de um trabalho: um texto sobre um rapaz solitário que terminou morto atropelado. Pegou os rascunhos leu e releu. Por fim amassou tudo e jogou fora. Que história idiota.

Pegou as chaves de casa, o mp3, a bicicleta e saiu.

#07 (2)

Pouco tempo depois se levantou e continuou sua caminhada até a boate. Pagou a entrada e o primeiro lugar que procurou foi o bar. Comprou mais bebida. Dessa vez optou pelo whiskey. Três doses depois ele mal conseguia se segurar de pé. Se arrastando e sem a menor consciência do que fazia, sem nem sentir as pernas, os braços e a língua, alcançou o banheiro. Antes que pudesse mijar direto dentro do vaso sanitário, percebeu que o serviço já estava feito dentro das suas calças. “Haha, foda-se” e então correu para a pista com a sua última dose de whiskey. Era a última dose que ele poderia beber por muito tempo. Seu futuro já estava traçado e marcado. Não colocaria mais uma gota de álcool na boca por um período grandioso de tempo, porém ele ainda não sabia disso. Estava se “divertindo”.

Agora estava com a roupa suja e molhada. Só não parecia um mendigo completo, pois segurava um copo de whiskey.

Na pista dançou o melhor que podia e obviamente não era bom nisso. As pessoas passavam por ele e riam da sua cara. O álcool o deixou mais irritável. Tinha um cara meio da pista, um playboy musculoso que ficava apontando de dedo para ele e insinuando sua sexualidade. Aturou por alguns instantes, mas não, não naquela noite. Já estava anestesiado o suficiente para fazer qualquer tipo de besteira. Naquela noite alguém pagaria pelo seu fracasso. E aí estava o escolhido. De regata, gel no cabelo e tênis de mola: um playboy.

Se jogou, todo desajeitado, para cima do playboy. Nunca tinha brigado antes. Não brigas de contato físico. Ele já tinha, sim, brigado através de palavras. Discussões verbais. Pancadaria não. Infelizmente para ele e felizmente para o playboy, nosso amigo não acertou um soco sequer, mas em pouco tempo de “briga” já tinha levado 2 belos socos no rosto e já tinha sangue descendo pelo nariz.

Não demorou muito para que dois seguranças os levassem para fora. Já na calçada ele pediu desculpas para o playboy. “Que era isso que estava fazendo?” ele se perguntava. Para ele a briga não tinha mais sentido, não queria mais continuar. Queria voltar a raciocinar como sempre. Gostaria de sentir suas pernas de novo, conseguir falar sem tropeçar nas palavras. Queria que o mundo parasse de girar. A sensação do álcool estava sendo boa, mas não era o que servia para ele. Gostava mesmo era de estar em plena consciência de si mesmo, poder tomar atitudes baseadas na razão e não na primeira coisa que vem na cabeça.

Do lado de fora, machucado, com sangue no rosto e na camisa, calça suja e molhada, esse era o visual dele atualmente. Sem conta, é claro, no estado péssimo do seu rosto, visivelmente bêbado.

Mais uma vez sentou-se na calçada. Esperaria o efeito do álcool passar para, daí sim, ir para casa. Porém, como tudo naquela noite, seus pensamentos e idéias mudaram de repente. Então levantou-se. Queria chegar logo em casa e dormir. Esquecer logo a vergonha onde ele mesmo tinha se metido. Agora estava com pressa. Decidiu correr. Ainda desajeitado tropeçou no meio-fio da calçada e caiu forte na rua. Estava sem forças, cansado e sem muita coordenação.

Tudo que fez foi olhar para o lado. Tinha um carro vindo em sua direção. Depois mais nada.

#07 (1)

Chegou com pressa em casa. Acendeu a luz da cozinha e um desânimo enorme tomou conta da cabeça dele. Até então estava certo de que sairia essa noite e faria a festa da maneira que todos fazem, porém o ar abafado e o cheiro peculiar da sua cozinha o fizeram pensar melhor. Já eram 22:20. Foi para o chuveiro e deixou a água cair fria. Uma sensação de desespero e agonia entrou no lugar do desânimo inicial. Ele estava preso a um mundo injusto. Precisava de dinheiro para viver, porém não tinha muito. Para conseguir o dinheiro ele tinha que trabalhar, porém já não tinha mais um trabalho. Sua vida profissional era simplesmente ridícula, a social praticamente não existia.

Sentou-se no chão do banheiro, ainda com a água fria caindo em sua cabeça. O cabelo cobriu os olhos e sua mente se abriu. Ele A vida acontece apenas uma vez, e até agora não tinha exatamente feito nada. Mas essa era a sua única chance. A única de saborear as mais variadas gastronomias, as mais diversas mulheres, os melhores livros, conhecer as melhores pessoas. Ele não iria mais gastar a sua vida com o dinheiro, com o trabalho escravo que são as 8 horas diárias.

Levantou-se, lavou-se e enxugou-se. Procurou o único perfume que já tivera na vida. Nunca o tinha usado. Passou, arrumou-se e pegou a carteira. “Vou sair” e saiu. O primeiro lugar que parou foi num bar próximo da sua casa.

O bar estava bastante cheio. Em uma rápida olhada notou que sua percepção do que os outros consideravam diversão estava certa. A grande maioria estava sentado em mesas pequenas, lotadas de garrafas de cerveja e com o cinzeiro cheio de cinzas, claro. O ar era carregado da fumaça dos cigarros e de risadas falsas. Não voltaria atrás. Pegou uma cadeira e uma mesa vazia e sentou-se. Logo chegou o garçom.

- Quero uma cerveja, por favor.

- Temos várias marcas, qual o senhor deseja?

- Qualquer uma. Me traga duas.

O garçom serviu o primeiro copo que foi bebido em segundos. Logo o segundo copo já tinha sido tomado e em poucos minutos a garrafa. Levantou-se, pagou a conta e levou a outra garrafa no colo. Aquela gente era ridícula demais para que ele ficasse agüentando. Já tinha ouvido falar de uma boate que ficava por perto. Para lá ele foi.

Como não era seu costume encher a cara, a primeira garrafa tinha feito um bom estrago na sua coordenação motora. A calçada, apesar de bem nivelada, era como um enorme obstáculo para seus pés. Tropeçou duas vezes. Na primeira caiu e rasgou parte da calça jeans no joelho. Na segunda vez se segurou num cara que passava por perto. Ele e todos os que andavam juntos riram do pobre jovem nerd bêbado e perdido.

Sentou-se na calçado e terminou a segunda garrafa. Precisava conseguir mais. O objetivo era apagar por completo, deixar tudo para trás, perder-se no ar ou, como dizem as pessoas normais, se divertir.

#06 (2)

No ônibus as coisas podiam ter dado errado, mas continuaria sua jornada. Não era apenas uma experiência ou uma aventura que, por motivos desconhecidos, tinha colocado na cabeça que faria. Claro que não, o que estava em jogo era um sentido para sua vida. E isso era sério. Desistir significaria a derrota completa, ou seja, que sua vida, matematicamente falando, seria igual a zero.

Chegou ao trabalho um pouco mais suado que o habitual: teve de passar por uma enorme vergonha, ser xingado e caminhado rapidamente para o local de trabalho.

Seu patrão, ao chegar, pediu para falar com ele em sua sala mais tarde, no final do expediente. Ótimo, talvez fosse a sonhada reviravolta de sua vida! Um salário melhor, uma promoção poderia estar por vir. Era, talvez, a grande chance de começar tudo de novo e com o pé direito.

Trabalhou como nunca. Foi simpático com os clientes durante todo o dia, conversou e contou piadas – mesmo conhecendo poucas, conseguiu tirar um ou outro sorriso de algumas pessoas. O dia tinha começado ruim, porém ele, sim ele mesmo, estava conseguindo por conta própria melhorá-lo. E, no final do dia, ainda tinha a chance de ganhar uma promoção, o que, em sua cabeça, era certo que ganharia.

A hora era agora. Seu chefe colocou metade do corpo para fora da porta e disse:

– Então, vamos lá? Podes entrar.

Sua cabeça estava flutuando, parecia dopado. Dopado de felicidade. Era uma sensação incrível, inexplicável. Se pudesse gostaria de se manter assim para o resto da vida. Aliás, agora, finalmente, sentia que sua vida estava valendo a pena, que ele não estava apenas gastando o oxigênio disponível em nossa atmosfera, que todo o gasto de energia que seu corpo tivera até agora finalmente teria um sentido, pois ele tinha um sentido, estava fazendo algo certo. Tudo parecia estar em completa harmonia, o movimento das coisas era muito agradável de se olhar, os sons que saiam da boca do seu chefe pareciam da melhor música do mundo. Tudo parecia perfeito até que seu estado de alegria fora interrompido pelas palavras VOCÊ, ESTÁ e DEMITIDO.

– Como? – perguntou desesperado, – Estou demitido?

– Sim, meu jovem. A empresa está passando por… – isso já bastava. Se levantou e saiu tomando bastante cuidado para que a porta batesse com muita força. As pessoas não prestavam. Seu dia fora arruinado, junto com sua vida, por pessoas ignorantes e gananciosas que não conseguem olhar muito além do seu próprio umbigo.

Sentia-se, novamente, dopado. Dessa vez sentia-se dopado de raiva e tristeza. Achou engraçado e curioso que dois sentimentos opostos – a alegria e a raiva – pudessem produzir o mesmo efeito em seu corpo. A vida era mesmo um grande mistério. Tinha nascido, estudado, iniciado um trabalho para nada. Onde estava o propósito de tudo isso? Talvez ele nem existisse. Ou melhor, ele não existe.

A última etapa da sua “aventura” precisaria dar certo. O que ele faria: sairia para um bar ou boate e tentaria beber até ficar completamente dopado, sim, da mesma forma que ficou dopado de alegria e raiva, queria ficar dopado, alegre e triste com o álcool.

Achou estranho? Pois não é. As pessoas consideradas normais fazem isso. E ele também faria.

#06 (1)

Acordou um pouco antes, dessa vez sem a ajuda do despertador ou dos raios do sol na sua cara. Levantou depressa, se espreguiçou e respirou bem fundo: esperava profundamente que essas pequenas atitudes pudessem mudar a sua vida ou pelo menos melhorá-la um pouco. Não é isso que as pessoas dizem? Que as pequenas coisas tornam seus dias melhores. Foi para o banheiro se arrumou e preparou o café. Colocou o pão na forma de misto-quente, mas o gás tinha acabado. Algumas coisas sempre darão errado, por melhor que sejam as suas intenções. Tentou não ficar com raiva, era só comida, apenas o seu café da manhã. Comeu, bebeu e saiu.

Depois de caminhar cerca de 100 metros se deu conta de que teria de ir de ônibus. Suas “manias” tinham de acabar e fugir delas não adiantaria em nada. As pessoas eram ridículas, sim, porém ele mesmo havia proposto que seria uma boa idéia ser normal e, sim, isso queria dizer aturar e até tentar se entreter com a conversa fiada de pessoas num ônibus. Caminhou para o ponto, onde duas pessoas já esperavam pelo coletivo.

– Oi – ele disse. Ninguém respondeu. Num primeiro momento percebeu que ser feliz ou parecer normal nada tinha a ver com ser expansivo e extrovertido. Nesse primeiro momento teve a percepção de que ser extrovertido e expansivo era apenas uma forma equivocada e estúpida de querer aparecer e ser notado. Ele não queria ser assim. E não tentaria ser. Portanto, ficaria na sua, só que mais simpático.

Já dentro do ônibus, colocou a mão no bolso para pegar o dinheiro da passagem, porém, para sua completa surpresa e afirmação da sua completa estupidez, estava vazio. Claro, sua idéia original era ir caminhando e para isso o dinheiro era desnecessário. Uma enorme sensação de vergonha misturada com desprezo a si mesmo tomaram conta do seu corpo. Como diabos poderia ter esquecido do dinheiro da passagem?

O que fazer? Não tinha a menor idéia. Nunca havia passado por isso. Não tinha como sair dessa situação sem ser percebido e sem parecer um completo panaca. Tentaria ser simpático, era essa a ideia.

– Moço – falou para o cobrador –, eu esqueci o dinheiro. – Vergonha, vergonha e mais vergonha. Sentia-se pequeno e muito burro. Talvez essa idéia de ser normal fosse mesmo ridícula, que ele não fora “parido” com esse objetivo, que não tinha tal capacidade. O cobrador, com aquele bigode tosco que mostrava o quão retardado e alienado era, fez uma cara de “você não vai me enganar, moço” e soltou:

– Alfredo! Para o ônibus.

Num solavanco o coletivo parou. O motorista e o cobrador pediram com o mínimo de educação possível para que “esse moleque safado e enganador saísse do ônibus”. Ele saiu, é claro. Como podia? Nunca o trataram assim. Ninguém realmente o conhecia a ponto de dizer com certeza que ela era um caloteiro, um “safado e enganador”, nas palavras do cobrador e do motorista. Ninguém. E agora, enquanto tentava ser legal para se sentir legal, as pessoas continuavam sendo os cuzões de sempre. Então pra que mudar se o mundo não está nem aí para mudanças e para os outros? Justamente naquele dia que ele tentaria ser um cara bacana, todos estavam contra ele.

Em algum momento isso daria certo? Ele já estava ficando chateado, mas ainda tinha vontade de sobra para continuar tentado. Pelo menos até o final do dia.

#05

As oito horas da jornada de trabalha do sábado tinham terminado. Sentia-se cansado, exausto e acabado. Não se sentia fisicamente cansado, mas mentalmente. Atuou durante 8 horas – sim, da mesma forma que um ator o faz – e não conseguiria agüentar mais ninguém e, talvez, nem a si mesmo.

Ao chegar em casa sentou-se no sofá, assim meio de lado, largou a mochila no chão e simplesmente ficou ali, apenas pensando. Não gostava de se ver pensando em futilidades como “minha nossa, precisa chover, as plantas estão secas!” ou “o passe de ônibus não pode aumentar mais”, pois nada disso importava para ninguém.

Será que sua vida fora planejada para ser apenas isso? Se tinha sido planejada, então nada faria o seu caminho de derrotas ser alterado, que sentido isso teria? Por que precisava ser dessa forma? Ficou duas horas assim deitado e em duas horas não chegou a nenhuma conclusão. Em duas horas passou a sentir ainda mais fraco do que antes, passou a sentir o ar ainda mais pesado do que antes, a luz tornou-se mais forte e menos presente, passou a perceber que ele não precisava da vida, ela era quem precisava dele.

Em um momento de euforia procurou desesperadamente por remédios ou meios rápidos de terminar tudo naquele exato momento, ali mesmo, naquele canto feio da cozinha, logo ao lado da mesa pequena que ainda estava com os restos do café da manhã. Não precisaria mais ter de escolher os alimentos industrializados mais do que sem gosto no supermercado, não precisaria mais pegar ônibus, não teria mais a necessidade de dinheiro, água, luz, telefone, TV e o principal: não teria mais de aturar as pessoas. Era uma solução simples para um problema complexo. Uns diriam que foi por sorte, mas o fato é que ele não encontrou remédios e nem mesmo a motivação inicial ainda estava ali naquele cômodo pequeno e branco. Então ele se acalmou.

Com o passar dos minutos seu nojo por si mesmo só aumentou.

Ele era um traste. Um ser inútil para o mundo e para ele mesmo. Seu café não prestava, odiava o pão com queijo do café-da-manhã, as pessoas não o conheciam, ninguém se importava com ele. Talvez nem ele mesmo suportasse alguém que fosse assim como ele. Decidiu tentar o outro lado. Tentaria viver o mundo como todas as outras pessoas.

Iria trabalhar amanhã. Tentaria sorrir e ser feliz, tentaria levar o papo das pessoas adiante, daria “oi” ao porteiro e se não gostasse disso, tudo bem, procuraria um bar ou boate abertos de noite e tentaria se divertir da forma “normal”.

A ideia parecia boa, só restava colocá-la em prática.

#04

Trabalhava atendendo as pessoas. Este era o maior problema do seu emprego: atender pessoas, lidar com suas vontades e ouvir conversa fiada. Decidiu que suportaria isso pelo menos até terminar sua especialização. Aí sim mandaria um belo foda-se para tudo que estava fazendo agora.

As pessoas são sempre estúpidas perto de desconhecidos. Sempre são estúpidas. Ele não conseguia suportar ninguém que aparecia e iniciava conversa enquanto estava no trabalho. Todos agiam de maneira forçada, às vezes grosseira demais e outras vezes as pessoas queriam agradar tanto que fingimento e a força que faziam para parecerem doces eram coisas ridiculamente exageradas e absurdas. Nenhuma delas o agradava. Achava tudo isso nojento, chato e incrivelmente idiota.

Todas essas agressões à vida – o trabalho forçado, a ânsia que as pessoas tem de comprar e conseguir dinheiro (pedaços de papel) – e ao que ele considerava importante realmente o deixavam incomodado, triste e sem vontade. Chegar em casa depois das 22 em um dia da semana piorava ainda mais a situação.

Por mais que tentasse, nos dias mais cinzentos era impossível não se rebelar contra a situação. Tinha estudado e concluído o segundo grau, portanto possuía um certo nível de conhecimento razoável – ao menos para os padrões sociais –, no entanto nenhum desses conhecimentos tinha utilidade real. Todo o tempo que perdeu na escola agora já estava perdido, pois tinha se decidido ir para – na verdade fora empurrado – a faculdade. Mais conhecimentos e mais tempo gasto para, no final, ter de aturar gente ignorante e sem conteúdo algum. Por que precisamos gastar nossos primeiros 20 anos, duas décadas inteiras, freqüentando salas de aula e professores? A resposta que a dona sociedade te dá é que você precisa ser alguém na vida.

Ele tinha terminado o ensino fundamental, o ensino médio, era graduado em uma faculdade e agora cursava uma especialização e ainda não era ninguém. Talvez, pensava, nunca chegaria mesmo a ser. Mas e daí? Muitos terminam a vida sem nunca terem sido alguém, apenas se enganando ao ser considerarem alguém.

#03

Sair de casa ou pisar no lado de fora eram tarefas fáceis. Nada disso lhe deixava envergonhado de si mesmo. As pessoas o incomodavam, eram as pessoas que o deixavam envergonhado. Não era algo neurótico, é que elas dificilmente entenderiam sua forma estranha de pensar. É como se seus olhos fossem capazes de perceber uma maior gama de cores, mais movimentos e sutilezas, mas, mesmo assim, sua vida fosse em preto e branco e câmera lenta.

Uma vez do lado de fora, os pensamentos começam a levitar devagar até flutuar majestosamente sobre tudo que ocorre à sua volta. Caminhava ou pedalava até o trabalho. Não hoje, pois era um sábado e estava atrasado. Seria obrigado a esperar o ônibus como muita gente, daquele tipo que gosta de reclamar de coisas banais e que puxam assunto comentando sobre o tempo ou sobre como o ônibus demora, todos um bando de seres imprestáveis que, pensando bem, não mereciam a chance de ter a vida nas mãos. E isso o incomodava muito. A vida em sociedade não faz muito sentido, pois as atitudes e o estilo de vida das pessoas era insensato. Nunca entendeu o real motivo para as pessoas sentirem essa necessidade mortal de estarem perto uma das outras.

De qualquer forma, ele gostava mesmo era de ir para onde quer que fosse de bicicleta. Ficou um tempo sem pedalar ao ouvir boatos de que isso poderia causar algum problema no seu desempenho sexual. Mesmo com pouca experiência nessa área, ele se preocupava com isso, então era algo que deveria cuidar. Tanto que ficou alguns meses andar, estava sempre a pé.

Evitava os pontos de ônibus e os coletivos cheios de gente não por nojo ou por não gostar de pobres, isso era besteira. Ir de bicicleta evitava o contato direto com pessoas, esse era o motivo maior. As pessoas é que eram horríveis. E sempre que ele podia evitar o contato social, ficava feliz e o grande peso conhecido como “ser sociável” nem sequer subia em suas costas.

Andar de bicicleta ainda o presenteava com a vantagem de apreciar a paisagem urbana – ele não se sentia incomodado com a tal “floresta de concreto”, considerava tal expressão um argumento bobo criado por pessoas que querem parecer diferente, mas que são tão estúpidas e vazias como qualquer um – e ouvir suas músicas preferidas, que são selecionadas a dedo, pois seu aparelho suportava algumas poucas dezenas de arquivos.

O prédio onde trabalhava já era logo ali na frente. O porteiro, como sempre, deu as boas vindas. É engraçado como existem muitos empregos onde a pessoa ganha para ser falso. Trabalhar como porteiro é um exemplo. Você conversa com pessoas inúteis para sua vida apenas porque você está aí parado. Nunca tinha sido porteiro, mas imaginava o quão chato é trabalhar nisso. Dizer oiolá para muitas pessoas, tirar dúvidas sobre onde fica tal loja sem se zangar e explicar que logo ali ao lado tem um enorme quadro explicativo.

Apesar de não precisar ficar dando boas vindas e tchau para pessoas aleatórias, o seu trabalho era entediante também. Tinha se formado fazia mais ou menos dois meses e já tinha conseguido um emprego.

Seu dia de trabalho estava prestes a começar, porém o seu dia – aquele dia agradável que faz parte do final de semana – ainda estava longe. Entre o início do expediente até o final havia, além de 8 horas, muito atendimento a clientes chatos e insuportáveis. Sua vida seria insuportável até a hora de ir. A vida das pessoas é insuportável, mas só é porque elas permitem. Ninguém precisaria mesmo trabalhar se o dinheiro deixasse de ser importante.

Só mais oito horas.

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